eu estava na janela do quarto quando a notei, no parapeito do prédio vizinho. O hotel era alto, mas o prédio da frente era ainda mais, e mesmo assim ela estava lá. Acho que nunca vou entender muito tudo que aconteceu em seguida, são flashes que me vem a mente, eu desci todas as escadas em segundos, atravessei a rua, peguei um elevador e fui até ela, antes que ela pudesse libertar o ar que tinha nos pulmões. O vento, como se pudesse lançá-la para trás, jogava seus cabelos de um lado para o outro, mas ela não ligava, continuava ali, só respirando.
- Por favor, desça daí. - disse, sabendo que eu estava mais sem ar do que ela, lá em cima.
- Volte para o lugar de onde veio.
Ela nem olhou para trás, não se assustou ou mudou o tom de voz.
Dei mais um passo, ou dois talvez, e ela me olhou.
- A senhorita acha que pode voar?
Ela continuou me encarando, seus olhos verdes eram lindos, mas cheios de nostalgia.
- Nunca saberei, tenho medo de altura.
Sorri levemente, e vi que ela não entendeu. Estendi minha mão e continuei:
- Desça, por favor. Prometo lhe mostrar se pode voar ou não, mas de outro modo, sem que você tenha de encarar seu medo por altura.
Ela continuava a me olhar, estática.
Respirei fundo e refiz o gesto, estendendo minha outra mão.
Ela se ajoelhou e começou a descer do parapeito, ao chegar ao chão, se aproximou de mim e perguntou:
- Promete?
- Prometo.
Ela segurou em minha mão e sorriu, eu sorri de volta.
- Garanto que pode voar, se ensinar seu coração a voar por ai, mas por favor, mantenha os pés no chão.
Talvez fosse mesmo só isso, se permitir.
Naquela noite, naquele segundo que levou horas para chegar, eu fiz isso, e só isso, me permiti.

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