Amores

O dia era lindo: o céu turquesa enfeitado com bolinhos de nuvens brancas, como algodão, o parque cheio com pessoas felizes, crianças brincando e se divertindo, casais apaixonados fazendo piqueniques em suas toalhas xadrez, a grama verde repleta de felicidade, até mesmo os pombos do chafariz se alegravam com o moço da carrocinha de cachorro-quente, que lhes jogava migalhas de pão, tudo tão belo e alegre, mas eu não. Sentada em um banco, ao lado de um simpático senhor que lia o jornal, o make da noite passada escorria por meu rosto, afagado pelas mãos, era o meu pior domingo, e eu estava totalmente deslocada daquele, lugar feliz. Enquanto secava os olhos com a barra do vestido, sujando-o de preto, não conseguia afastar de meus pensamentos a cena.
Aquele mesmo lugar, mas era noite, uma lua enorme e linda brilhava no céu, nós estavamos ali, deitados na grama, ele escorava a cabeça sobre um dos braços e o outro passava pela minha cintura, e eu deitada em seu peito, acompanhando o ritmo da respiração e dos batimentos dele. Ele não falava nada, e eu cantava baixo a música que me fazia pensar nele. Eu estava feliz, eu estava bem, o mundo podia acabar, eu não iria me importar. Ali, com ele, nada existia, nada além.
Ele me puxou, se levantou, sentou-se e colocou minha cabeça em suas pernas, arrumava meu cabelo, e pelo que eu sabia, queria falar alguma coisa mas não sabia como.
Ele me levantou, sentados, abraçados, ele ainda brincava com meus cabelos quando começou a falar, baixo que não podia continuar, eu não entendi e questionei com o que ele não podia continuar, e ele disse:
- Com você.
Meu peito era algo expulsando o ar, eu não sabia se estava respirando, pensando, por segundos eu vegetei para entender, assimilar aquilo. Minha cabeça ficou confusa, milhares de perguntas se formulavam, e ficavam ali, sem resposta. Ele, me abraçou mais forte, mas eu não queria que ele me abraçasse, queria que ele esclarecesse aquilo, por um instante pensei estar insana.
- Do que você esta falando? - perguntei, e senti o ar entrar novamente nos pulmões, me senti insegura, desprotegida nos braços de um bandido.
- Temos que terminar, eu não queria fazer isso, mas é necessário... - ele continuou a falar, mas eu não via sentido nas palavras, não via nada, só sentia o vento balançar meus cabelos, a ausência do meu coração ali, e meus olhos queimando em lágrimas. Eu não sentia nada, eu estava surpresa, triste, feliz, um misto de sensações contraditórias, um paradoxo. Dez minutos antes, eu o amava, e agora não tinha certeza nem ao menos de estar viva.
Depois de um tempo se explicando, vi que ele se levantou, e ouvi algo que me pareceu uma despedida, tocou seus lábios nos meus, e se foi, como quem cumprimenta um conhecido e passa logo. Eu fiquei ali, tentando entender, ele, e eu. Vendo o dia amanhecer, as pessoas, a alegria daquele domingo, que entrava em total contradição com minha ultima noite, com meus sentimentos, meus pensamentos, anseios. Eu implorava por qualquer coisa, que me fizesse sentir melhor, que me fizesse entender, que me fizesse esquecer.
Fui pra perto da fonte, o chafariz com os pombos, lavei ali o rosto, tentei melhorar a minha aparência, a do vestido, estava ali, distraída com o horror que sentia ao ver meu reflexo na agua quando um disco caiu no chafariz, me molhando, tudo sempre pode piorar. Um cachorro veio logo atras, pulando em mim, e eu o entreguei o disco, e seu dono veio logo se desculpando, tirando da mochila uma toalha, um garoto, com aparencia de dois anos a mais, educado, que me ajudou com o vestido, foi fofo, me levou para almoçar, me deixou em casa, e me confortou em seus braços, em seus lábios. Senti meu coração retomando pouco a pouco seu lugar, a cada sorriso dele, uma veia se religava em mim, eu sabia, que logo estaria recomposta, havia sido apenas mais um amor, e logo esse seria também, só mais um amor, mais uma noite triste no parque, ou em qualquer outro lugar, com outro garoto para me confortar, com outras lágrimas, outro vestido, nada é pra sempre, mas é eterno enquanto dura, e triste quando acaba...

3 comentários:

  1. Adoro tudo que você escreve! :)

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  2. Sem palavras.Que texto mais lindo,ele é tão perfeito.Amei,amei,amei.Ele é tão sincero,criativo,emotivo,não sei explicar."nada é pra sempre, mas é eterno enquanto dura, e triste quando acaba..."

    To te seguindo também, beeijos ;*

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  3. amei, amr!

    o final ficou perfeito! (:

    ;*

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